O Japonês, o colégio e o acaso

 

Existe uma lanchonete no meio do caminho entre minha casa e meu trabalho, que tem um salgado delicioso. Ele é feito com massa de empada no formato de pastel, com recheio de frango e requeijão, e é uma delícia. Eu conheço essa lanchonete há alguns anos, ela fica do lado de um colégio onde estudei, e é tocado por uma família japonesa.

No caixa tem o avô, que parece um mestre de filme de artes marciais, o neto, provavelmente faz as compras e ajuda quando necessário, mas de longe parece um lutador de cinema, pelo seu porte físico.

Tem também a avó, que parece ter uns sessenta anos, mas deve estar beirando os cem. Além deles, tem o pai e a mãe, um simpático casal, como são tradicionalmente os nipônicos.

Eles não falam muito, porém atendem muito bem. Essa lanchonete, que existe há anos deve ter ajudado a pagar as despesas da família, faculdade dos fílhos, construído suas vidas, pois por muitos anos, a correria do colégio ao lado gerou merecidos dias movimentados no local.

Mas aí entra o acaso. Tudo poderia seguir esse equilíbrio estático, mas há uns anos atrás, o filho do dono do colégio e sua namorada, foram assassinados sem motivo numa rodovia, o que deixou um grande desgosto no pai. Ele, educador, conhecido por suas sandinices, ficou desgostoso da vida, tocou o colégio por mais alguns anos e finalmente fechou as portas.

Obviamente, o movimento na lanchonete foi afetado pelo acaso. Mas ainda tem a prefeitura, que bem menos que o colégio, ainda gera alguns fregueses (mesmo com a mudança de local da câmara municipal, outro acaso).

A família continua tocando a agora vazia lanchonete, mas o acaso tirou seu potencial. Não pagará mais faculdades, luxos, porém eles pagam suas contas com ela.

Mesmo eles estando estáticos, sua influência no acaso é nula. As coisas acontecem, e mesmo estando longe nos afetam de forma irreversível.

Eles, assim como eu, devem sentir saudades do movimento do colégio, correria, porém seus salgados continuam ótimos, e eu continuarei indo testar suas delícias.
E como um cartaz do seicho-no-ie, que eles mantém há décadas na parede: “Nesta vida, não existe beco sem saída”.



Escrito por LEoCASt às 09h05
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