Bom, meu ídolo atual é um escritor... Se vc pensa que é Niestche, Marx, Machiavelli, Sheakspeare.... está enganado... o nome dele é Walcyr Carrasco! Isso mesmo, autor de "Chocolate com Pimenta", cronista da Vejinha... Uma coisa digo: o cara é bão!! bão mesmo!! Acabei de ler seu último livro e me fez uma pessoa melhor. É um dos raros livros que mexem com a gente, com bom humor e perspicácia. Abaixo, segue um aperitivo:
Ser o que não se é Walcyr Carrasco
Já perdi a conta do número de pessoas que vêm com a história:
– Meus avós eram riquíssimos, meu bisavô foi até barão. Perderam tudo na...
Em um país de altos e baixos, é comum encontrar fidalgos matando cachorro a grito. Só me espanta o número. A quantidade de descendentes de nobres franceses por aqui daria para povoar a Lua! Outro dia fui ao conjugado de um sujeito gordo e bigodudo. Havia uma cristaleira antiga, que ocupava a metade da parede. Dentro, uns copos esbeiçados.
– Foram de minha avó... chiquérrima, só servia a mesa com talheres de prata.
Olho as paredes rachadas, sem pintura. Penso: "e daí?". Ao comentar tanta fidalguia com uma amiga comum, tive a revelação:
– Nobre coisa nenhuma. Os copos ele arremata nas feirinhas de antiguidade, só para botar banca.
Muita gente se mata para comprar roupa de grife à prestação. Depois, só falta pregar a etiqueta na testa. Dia desses minha amiga Janice se encontrou com um casal poderosíssimo. Marido dono de empresa, mulher diretora. Falaram de cães. A executiva descreveu os seus: todos de alto pedigree.
– E você, quais tem?
Minha amiga começou:
– Um pincher... um policial...
A outra torceu o nariz diante de raças tão comuns. Janice lembrou-se de seu vira-latinha. Uma graça. Saiu-se com esta:
– E um sptifire do Himalaia.
O casal arregalou os olhos. A mulher arriscou:
– Mas... essa deve ser uma raça muito rara.
– Raríssima.
O marido pediu a descrição. Precisava ter alguma noção do tal cachorro único.
– Bem... tem o porte médio... pêlo levemente amarelado... baixo... orelhas pontudas...
O casal ouvia, torcendo as mãos. Certamente, até hoje estão vasculhando canis em busca do tal sptifire.
E a mania de se exibir com vinhos? Não me refiro aos verdadeiros enólogos, que encontram prazer real na garimpagem de rótulos e safras. Mas a quem age como se conhecer vinho significasse alto pedigree. No restaurante, é um ritual. A pessoa cheira a rolha. Mete o nariz na taça. Experimenta. Gargareja.
– Está bom.
O sommelier sorri, como se estivesse aplaudindo um experto. Já conhece o tipo. Na hora da conta, o sábio reclama.
– Que absurdo. Também, o vinho está caríssimo.
Pergunto: a mesma pessoa teria coragem de escolher outro, mais barato? A demonstração de status onde fica? Mesmo que tenha de parcelar no cartão!
Conheço uma estilista que se faz de chiquérrima e mora em casa alugada. Com a mesma quantia, poderia pagar a prestação de ambiente mais modesto! Algumas socialites ligam para as lojas para pedir vestidos emprestados, com a desculpa de fazer propaganda.
Certa vez, ao comentar que meu pai era ferroviário, ouvi uma resposta-surpresa:
– Que coragem você tem de confessar!
Coragem? Acaso me envergonho de minha origem mais humilde? Tenho é orgulho! Vergonha seria inventar biografia falsa. Como uma amiga da Zona Leste. Orgulhosa, mostrou a mãe, velhinha, rosto sulcado de tanto pendurar roupa no sol.
– Ela descende de nobres russos. Fugiram durante a revolução.
Que glória mais sem pé nem cabeça!
Certa vez, há anos, um primo fechou um veículo na estrada. Buzinaram. Foram para o acostamento. Do outro carro saiu um sujeito furioso, aos berros.
– Sabe com quem está falando?
Meu primo vislumbrou a tragédia: seria um militar, um político, o primo do papa? Só havia uma saída. Berrou de volta, mais alto ainda:
– E você, sabe com quem está falando?
Os dois silenciaram. Cada um correu para seu carro e fugiu.
Se qualquer um dos dois soubesse com quem falava, provavelmente não teria a menor importância.
Escrito por LEoCASt às 10h43
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